Dia 15 de junho, um sábado. Até vos podia precisar as horas, mas foi à tarde, depois de almoço. Estava na Montana com o Ben e a Joana, já depois de um brunch, e desabafava que precisava de um projeto meu… Algo meu além do blog, além do Instagram. Algo diferente e que me motivasse, que me fizesse aquecer o sangue e que me criasse aquelas borboletas de insegurança no estômago.

Sabia que não queria criar uma marca de roupa ou de jóias. Amava ter uma coleção de maquilhagem, é certo… Mas ainda estou longe de chegar aos olhos de alguma das marcas com quem colaboro regularmente. Sempre quis ter a minha plataforma online. Ter um Refinery29 ou até um Man Repeller look-a-like. É o meu sonho poder estar por trás de uma destas plataformas — mas ainda não é a altura. E sempre pensei em ter um podcast.

A verdade é que eu falo sobre tudo — e o que não sei, tento aprender para poder falar. Crio opinião sobre tudo e mais alguma coisa e tento discutir todos os assuntos. Torno-me chata, repetitiva, maçadora… Estou sempre a bater nas mesmas teclas e sinto que sou demasiado contestatária — até como a verdadeira Mafalda, a do Quino. E partilhar por aqui ou pelo Instagram já não me chega.

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Fazer rants nas stories sobre a minha defesa feminista, já me parecia pouco. Não ter mais espaço para falar sobre isto de vestir um 40 e ser insegura num mundo onde tudo parece feito de tamanhos pequeninos. Partilhar o meu amor à música e como tudo se move em torno dela. Tudo isto já não me chegava apenas nas stories do Instagram, nos posts do blog ou até nos ouvidos dos meus amigos que já pedem por silêncio.

E um podcast pareceu-me a coisa mais acertada. Mas por onde começar? Que material usar? Como gravar e onde publicar? Mas e o nome? E lanço quando? Mas sozinha? Mil questões, claro. E felizmente, alguns amigos conscientes o suficiente para acalmar esta alma de gémeos que precisa desta validação constante para conseguir avançar nos seus projetos. Gravei o primeiro episódio a 1 de setembro e o último a 15 de novembro, tudo em modo segredo. Durante semanas marquei e desmarquei conversas com medo de falhar, com medo de não se chegar. Mas tudo a seu tempo e, eventualmente, chegámos ao dia 1 de dezembro.

Os episódios estão gravados, a plataforma está criada, o nome está decidido. As dinâmicas, os temas, as pessoas. Tudo está criado, tudo está decidido e ele está no mundo.


Chama-se Sobremesa. E a melhor forma de terminar o meu 2019 (e a minha década), mas também a mais assustadora. De forma totalmente despretensiosa era só isto que eu queria: falar sobre tudo. E sobre nada. Com as minhas pessoas. Chegue a quem chegar e a quem quiser ouvir — sejamos 10 ou 10 mil.

Não sei quantos somos ao certo — isto de estar em várias plataformas não facilita a coisa. Mas em menos de 7 dias cheguei ao top 10 de podcasts mais ouvidos em Portugal, segundo a Apple. Cheguei ao top 20 do Spotify. E enquanto vos escrevo isto sou o podcast mais ouvido na categoria de Sociedade e Cultura — sabia lá eu em que categoria encaixar isto, mas se o Miguel Luz também lá está, acho que estou no sítio certo.

É surreal ter chegado aqui. Mas olhando para trás, aquela tarde na Montana em que a Joana e o Ben me disseram para arriscar e me empurraram para isto nunca me pareceu tão decisiva. E arriscar, por vezes, sabe mesmo bem, caraças!

Vídeo e edição: Márcia Soares


Claro que não posso terminar isto sem vos dizer onde ele está. Está no Spotify, no Apple Podcasts e no Soundcloud. Serão (para já!) 10 episódios, todos os domingos, ali pertinho da hora do almoço. 10 temas com 10 amigos meus. E eu a ser eu mesma — com tudo o que isso implica.