Volvidas três décadas de vida, tenho que assumir que a última foi de especial crescimento — e entrar nos trinta tornou-se ainda mais marcante. Sem dúvida que a década dos 20’s foi marcante e é aquela fase em que a nossa vida mais muda… O terminar da faculdade, entrar no mundo do trabalho, conhecer o amor da nossa vida (e perceber que afinal não é o certo), ter contas e despesas para pagar e até dominar os corredores de supermercado.

Não mudaria o sítio onde estou hoje para voltar a ter vinte anos — e os trinta nem sequer me assustam. Não estou onde queria estar, mas isso não é necessariamente mau. Estou num sítio que me fez crescer, que me fez ser o que sou hoje e estar em paz comigo. Até porque, a partir daqui, tudo pode acontecer.

Trinta lições que aprendi antes dos 30. — Malmequer

E por isso, hoje conto-vos 30 coisas que aprendi antes dos meus trinta anos. Algumas que são verdadeiras lições e outras que levo para a vida.

1

Não fazer fretes

Acho que esta é capaz de ser a mais flagrante. Sempre fui a pessoa de fazer tudo para agradar. Ir quando não queria, estar quando não queria estar. Apenas para os outros estarem bem. A partir o momento em que percebi que eu tenho que ser a prioridade, os fretes acabaram-se. E por muito egoísta que possa ser, hoje em dia só faço o que eu quero — o que me enche o coração.

2

Que o Feliz Natal também é para os peruanos

Parece estranho, eu sei… Mas eu cantei mal uma música de natal até aos 24 anos. Qual? Esta.
Feliz navidad, Feliz navidad, Feliz navidad Prospero año y felicidad — e como é que eu a cantava? Feliz navidad, Feliz navidad, Feliz navidad pros peruanos y felicidad. E lembro-me perfeitamente do momento em que me caiu a ficha, na Parfois do Atrium Saldanha em plena época natalícia, claro. Nunca me senti tão estúpida!

3

A não me conformar

E com isto não quero dizer que me tornei chata e obsessiva. Mas aprendei que não posso ficar muito tempo em situações onde não estou confortável. Onde sinto que não sou valorizada e ou até nem recebida. O mundo não acaba na mudança — pelo contrário. É uma prova e uma forma de crescermos, sempre.

4

A falar italiano

Depois de seis meses a viver em Pádua (ali bem pertinho de Veneza), aprendi a falar o básico de italiano. Fiz erasmus lá e todas as minhas aulas eram em italiano — o que me ajudou a treinar a língua, sem dúvida. Mas convivia com imensos portugueses e em minha casa falava-se inglês, daí não ter passado do italiano básico. Hoje em dia arrependo-me e confesso: mi manca tantíssimo parlare in italiano.

Trinta lições que aprendi antes dos 30. — Malmequer

5

A conduzir

É verdade — embora não conduza, tirei a carta há 11 anos e acho que peguei num carro pouco mais de dez vezes. Na segunda semana de carta de condução, uma curva não correu como eu previa. E foi o suficiente para me assustar ao ponto de não querer mais conduzir. É claro que fui pegando em carros: porque precisava, porque os meus amigos não estavam em estado de conduzir, etc. Mas, hoje em dia, faço a minha vida à base de transportes e Ubers. Se sinto a falta de conduzir? Claro que sim — especialmente no verão quando quero ir à praia e tenho sempre que cravar boleia a alguém. Mas algum dia voltarei a fazê-lo? Também acredito que sim. Tudo a seu tempo.

6

E a cozinhar

E bem, if i do say so myself. Sempre fui fã de cozinhar e especialmente de fazer bolos. Embora não siga as receitas à risca (o que leva a alguns erros e tiros furados), adoro perder-me na cozinha e experimentar coisas novas e diferentes. Falando nisso: aconselham-me algum livro de receitas bom? Sem carne, claro!

7

Passar recibos, pagar IVA, pagar IRS…

Entrei no mundo do trabalho a sério e tive que lidar com a realidade dos recibos verdes e tudo o que isso traz consigo. Trabalhei dois anos assim e aprendi a viver no sufoco do inconstante, do não ter subsídios e de descontar horrores. E embora não tenha continuado assim até aos dias de hoje, aos 30 anos vou saber, pela primeira vez, o que é ter um subsídio de férias e de natal. Já estava na hora!

8

Que não se morre de amor

Achei que tinha encontrado o amor para a vida. Achei que ia ser para sempre, ter filhos e quem sabe convencê-lo a casar. E, literalmente do dia para a noite… tudo mudou. Carpi, sofri e achei que nunca mais ia conseguir ser feliz. Muito menos quando já se é crescida e se pensa no que será o futuro daqui em diante. But hey… here i am. Não morri de amor, nem da falta dele. Cresci e tornei-me numa melhor pessoa. E em alguém que sabe o não quer do seu lado — que, por vezes, é bem mais importante do que saber o que queremos.

9

Que não vamos agradar a toda gente — e que não há nada de errado com isso

Seja nas decisões que tomamos, nas palavras que dizemos ou até pelas festas a que não vamos. Porque, no final do dia, só temos de agradar a uma pessoa: ao eu. E se, depois disso, conseguirmos agradar aos que nos rodeiam, melhor ainda.

10

Viver em dieta é uma seca

Passei anos e anos em constantes dietas. A privar-me de x e y porque a balança me mostrava um número alto. E para quê? Para enloquecer de ansiedade sempre que sabia que tinha de subir para cima da balança ou de comprar um par de calças. E não quero com isto dizer que como tudo o que quero, não. Mas aprendi a viver em equilíbrio — e isso é bem melhor do que viver em dieta. Saber o que me faz bem, o que alimenta o meu corpo como deve de ser e o que o faz funcionar em saúde — porque este sim, é o ponto importante. Mas também o que me alimenta alma e me deixa feliz. A salad to keep me healthy and a burger to keep me sane.

11

A ser menos judgy

Acredito que as pessoas que entram na nossa vida têm um propósito consigo. E a Eduarda trouxe-me muito nestes últimos anos, várias lições — uma delas foi esta. Sinto que tenho a voz dela constantemente na minha cabeça a dizer-me que não devemos julgar os outros. Não sabemos em que situação estão, o que estão a viver ou a sentir naquele momento e o que as levou a fazer ou a dizer determinada coisa. Podemos procurar saber, tentar ajudar ou compreender. Mas, sem saber, nada nos dá o direito de apontar o dedo e julgar — até porque nenhuma realidade é igual à nossa. E é um erro se assumirmos isso.

12

Que amo Nova Iorque como não amo mais nada

Descobri que a amava há quatro anos, quando a visitei pela primeira vez. Já estou de viagem marcada para lá voltar porque… não aguento. Sei que tenho todo um mundo para conhecer, mas quando se tem Nova Iorque nada mais importa. Podia dar-vos mil explicações para este amor, mas caso acreditem, digo-vos que acho (mesmo) que vivi lá noutra vida. E é lá que sou feliz como em mais sítio nenhum. See you soon, my love.

13

Que os figos podem não ter minhocas

Não sou muito esquisita com a comida — há certas coisas que não como por não gostar ou por convicção, mas não me considero problemática para comer. Mas assumo: há texturas e aspectos que me fazem alguma confusão. E talvez seja por isso que só provei figos quando tinha… 27 anos. Fi-lo porque trabalhava com um colega que tinha uma figueira em casa e nos abastecia de figos diariamente. Via-os a deliciarem-se com a fruta e tive que experimentar. But i can help but wonder (olá Carrie!) se não estarei a comer uma minhoca ou outra… Sou a única?

14

A lidar com a ansiedade

Percebi que isto que sinto é ansiedade. Que a posso antecipar, que não morrerei dela e que posso tratá-la. Basta querer e procurar ajuda — até porque nisto da saúde mental, nada é mais fulcral do que isso mesmo. Procurar ajuda.

15

O trabalho não é (nem pode ser) tudo

Há uns meses entrei numa espiral absurda. A trabalhar mais de 14 horas por dia, com crises de ansiedade como nunca tive, a alimentar-me mal (e a engordar mais de 5kg à pala disso) e a deixar de ter vida própria. Cancelava jantares com amigas, chegava a casa e ainda pegava no computador, deixava de ir a eventos relacionados com o blog e para quê? Para não ser feliz. E decidi que nunca mais iria permitir isto — porque em 24 horas do nosso dia, tem de haver espaço para tudo. Trabalho, vida social e vida pessoal. Bem gerido, temos 8 horas para tudo.

16

Ninguém acerta à primeira — nem à segunda

Nem à terceira… E não é por isso que temos que parar ou nem sequer arriscar avançar. Sinto que tenho imensos projetos na prateleira por isso mesmo: por ter medo que corra mal. Que o primeiro seja mau, que o segundo não melhore e nem o terceiro esteja perfeito. Mas serve de algo deixar os sonhos arrumados por nem sequer tentar? afinal de contas, quem é que é perfeito à primeira? Ninguém!

17

A fazer um guacamole incrível — e um hummus igualmente bom

Descobri que adoro abacates e que, com os ingredientes e condimentos certos, faço um guacamole mesmo bom. Não estou a ser convencida — é mesmo bom! E graças a uma amiga libanesa, aprendi a fazer um hummus muio semelhante ao verdadeiro, ao árabe. E tenho que ssumir que é igualmente bom — só ainda não atinei no fallafel. Mas lá chegarei.

18

Que sou uma people pleaser e adoro receber pessoas em casa

Nada me faz mais feliz do que ter a casa cheia. Cozinhar para os meus amigos, preparar-lhes uma mesa de snacks e tê-los sentados aqui, no chão da minha sala. Percebi que sou feliz quando faço os outros felizes, especialmente se for na minha safe zone.

19

A pedir desculpa mesmo quando acho que não errei

Aprendi isto na minha última relação a sério. Por vezes podemos achar que não fizemos nada de errado, mas se a nossa atitude ou as nossas palavras, de alguma forma, fizeram a outra pessoa sentir-se desconfortável, devemos pedir desculpa. Porque nem sempre a nossa intenção é igual à força da nossa acção — e podemos até achar que estamos a fazer o melhor do mundo. Mas se magoamos alguém que nos é importante, mesmo que a nossa intenção seja a melhor, só temos que pedir desculpa e perceber onde é que errámos para evitar repetir.

20

Que existem causas pelas quais nunca me calarei

Feminismo, racismo, homofobia, bodyshaming. Nunca deixarei de as viver e de as defender. E acima de tudo, de mostrar ao mundo que não precisamos de viver a realidade para lutar pela causa. Até porque todas elas lutam pelo mesmo: pela igualdade de direitos humanos.

21

A tratar da minha pele

Lembro-me de, há uns tempos, ver uns vídeos da Mafalda Nunes em que ela dizia que usava mais de 10 produtos na sua rotina. E eu achei um exagero, confesso. Até que olhei para a minha casa de banho… Entre limpar o rosto, hidratar, etc etc, facilmente utilizo o mesmo número de produtos. E isso revela-se no estado a minha pele? Hell yeah, até porque aprendi a usar os produtos indicados para mim e os que realmente fazem algo pela saúde da minha pele. Não basta apenas acumular produto sob produto. Há que perceber e saber o que se está a usar e, acima de tudo, quais as necessidades da nossa pele.

22

Que há tipos de amigos

Os amigos para a vida. Os amigos para jantar. Os amigos para as festas. E os amigos que não ficam para sempre, que são do momento. E que todos eles são válidos porque, a certa altura, todos eles acrescentam algo. Mesmo aqueles com quem eventualmente tive que cortar, os que não me faziam bem ou que não me acrescentavam nada, trouxeram algo para a minha vida. O importante é saber quais os que estão quando precisamos, seja qual for a ocasião.

23

O poder de dizer não

E que também eu posso ser um diferente tipo de amiga — especialmente porque aprendi a dizer não quando quero dizê-lo. Porque não quero sair à noite, porque não quero gastar dinheiro naquele jantar ou porque não me apetece, simplesmente. E isso não faz de mim uma merdas. Saber dizer que não é importante, especialmente para o nosso bem estar.

24

Que sou mais de ficar em casa do que de sair

E tive de dizer alguns nãos por isto mesmo — troco uma noite de discoteca e copos por uma noite de sofá com séries, manta e coca-cola. Ou por uma noite de amigos em casa, com um bom vinho e uma conversa interminável. Sem pestanejar.

25

Que gosto de me ver de cabelo curto — e com franja

Depois de viver 24 anos com o cabelo pela cintura (excepto ali uma fase em que tive piolhos, no colégio… #quemnão?), arrisquei a cortar o cabelo pelo peito. Duas semanas depois estava a cortá-lo acima dos ombros. Dois anos depois estava a fazer franja e a apaixonar-me pelo resultado. É muito Alexa Chung, eu sei. Mas é o meu corte de cabelo favorito e não me vejo a mudar em breve… Pelo contrário, tenho que ir aparar estas pontas, que ele já está comprido!

26

Que só a mim devo justificações

Porque, lá está, no final do dia, sou eu que lido com as consequências das minhas acções. E mesmo que quem está à minha volta não entenda, só eu tenho que saber o porquê. E saber que tenho quem me apoia ao meu lado.

27

A valorizar a saúde

Ao perceber que estava a desenvolver a ansiedade em mim, que estava anémica porque não compensava o facto de ser vegetariana, que a minha constante má postura me está a dar cabo das costas ou até que às vezes é preciso perder a vergonha e ir às urgências quando não se aguenta mais. Felizmente, esta década não me deu muitas idas às urgências, mas fez-me abrir os olhos para todas estas questões. E a perceber que se eu não cuidar de mim, ninguém o fará — por muito clichê que isto seja.

28

Percebi que a música é fulcral na minha vida

Que continuo a amar viver em concertos, que viajo para fora do país atrás das minhas bandas favoritas e que continuarei sempre a chorar com música. Não passo um dia sem (a minha) banda sonora e continuo a achar que tenho um gosto bem eclético — mas também aprendi que não me forço a ouvir o que não gosto. E que não entendo quem diz que não gosta de música ou que lhe é indiferente… can’t relate!

29

Devia ter poupado mais

Hoje em dia olho para trás e sinto que podia ter poupado muito mais do que fiz. Na altura em que comecei a trabalhar, só tinha o ginásio e o passe para pagar — sem mais despesas. Não havia renda, água ou luz para pagar. O dinheiro que gastei em saídas, em roupa e em futilidades podia ser, hoje em dia, o dinheiro que gastaria em viagens ou até mesmo em poupanças. Não o fiz e arrependo-me, muito. Soubesse o que sei hoje e teria poupado muito mais.

30

Sou 90% emoções

Sei ser racional e sei parar para recomendar os outros da forma mais consciente possível. Mas, no que toca a mim, sou 90% emoções. Choro, sorrio, grito, fico histérica… Seja o que for, seja com o que for e em que situação for. Atiro-me de coração e tenho-o, literalmente, on my sleeve. Não que me chateie ou que ache que isso seja um problema. Adoro ser de coração e viver de coração, com todos os dissabores que isso me pode trazer. E com todas as lições que daí aprendo. Porque é a forma mais pura de fazer tudo, de coração.

Olá trinta! Que bom conhecer-vos.

Acabadinha de entrar na década dos trinta, sinto que estou no melhor de mim. Posso não estar na melhor fase da minha vida e ter ainda algumas coisas por resolver — o que também aprendi que é uma forma de crescer e de desenvolver. Mas, quanto a mim, sinto que estou como quero e onde quero. E, daqui em diante, só pode melhorar — só irá melhorar. Tenho a certeza.


Fotografias: Márcia Soares • Vestido: Rust and May