Fotos: Getty Images

Repensei, várias vezes, se deveria ou não escrever hoje sobre isto. Estou numa fase de guerra com o blog, com a ideia que quero revolucionar conteúdos e, acima de tudo, tornar tudo isto cada vez mais pessoal e intimista.

E, por isso mesmo, não poderia deixar passar isto de lado. Sim, eu sou feminista. Acho que há muito que isto deixou de ser tabu, deixou de ser visto com maus olhos e deixou de ser motivo de crítica. Sou feminista – e afirmo-o cheia de orgulho e com alguma pena de não ter estado presente em nenhuma Women’s March.

Não acho que esta questão seja meramente política e não acho que esta necessidade se deva apenas à eleição do Donald Trump. Acho que esta eleição veio apenas maximizar a sociedade em que vivemos e dar voz a algumas ideias que, até agora, estavam reprimidas. Porque não é normal apoiarmos quem acha que homens devem agarrar as mulheres by the pussy. Não, não é normal.

A mensagem que eu acho que qualquer feminista quer passar – e que se quis passar nestas marchas – é apenas uma: os direitos das mulheres são os direitos humanos. Full stop. E se é necessário marchar para unificar as comunidades, que seja. Precisamos de paridade e de igualdade em todos os níveis da sociedade e liderança. Porque é preciso perceber que nós, mulheres, somos iguais ao resto da sociedade. Que tem que haver igualdade. Igualdade social, económica, política, orgásmica até! Precisamos que o mundo reconheça que não haverá descanso enquanto não houver justiça e igualdade para todos. E para todos mesmo: brancos, pretos, amarelos, mulheres, homens, trans, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, imigrantes, nacionais… Todos. De enraizar estas ideias e de fazer que isto sejam ideais que venham de dentro, de criar uma mudança desde dentro.

Porque não “estou a pedi-las” por andar de calções ou com um decote. Porque o meu corpo não é para ser tocado, elogiado, assediado a belo prazer de terceiros. Porque eu não sou uma ordinária por tirar uma fotografia com menos roupa e enviá-la ao meu namorado. Porque eu sou livre de fazer o que quero com o meu corpo, inclusive ter a opção de querer ser ou não mãe e quando o quererei ser. Porque eu não sou pior profissional por ter dois ou três filhos ou até porque tenho que dar de mamar. Porque o meu mamilo não deve ser censurado se é igual ao de qualquer homem – talvez com menos pêlo, vá.

Poderia ficar todo o dia aqui a justificar-vos a importância de ser feminista. E como o feminismo não é apenas uma condição das mulheres – se um dia tiver filhos, quero que eles cresçam como feministas porque eu sou muito feliz por estar rodeada de pessoas com este mindset – homens também. Mas acho que este vai ser apenas o primeiro de muitos artigos neste sentido. Porque esta frase da Angela Davis diz tudo o que sinto:

I am no longer accepting the things I cannot change. I am changing the things I cannot accept.

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  1. Bravo, Mafalda. Ótimo texto. Pensei que em 2017 a luta da humanidade seria contra robôs ou aliens, em vez disso regredimos a uma velocidade estonteante e voltamos a sair à rua para defender o mais básico, direitos humanos. Feminista sempre, porque afinal o feminismo é só a luta pela igualdade de direito. 🙂

  2. BG says:

    Clap Clap!
    Li uma altura algo da Maisie Williams com o qual não me podia identificar mais. Na verdade tu, eu, estas mulheres que lutam não devíamos ser feministas. Porque isso devia ser normal… isso devia ser o que toda a gente devia ser! E quem o não é, é que deveria ser chamado de machista e sexista… ou és "normal" ou és "sexista". Da mesma forma que rotulamos de forma negativa um racista, um homofóbico, etc., e não temos forma de designar as pessoas que não o são, porque isso é o que se espera de um ser humano! Mas, infelizmente, ainda será um longo percurso para chegar até aí, até essa "normalidade"!

  3. clap clap clap Mafalda muito bem escrito. sendo eu uma apaixonada por posts mais pessoais acho mesmo que fizeste bem em mostrar a tua opinião sobre este assunto que precisa ser falado vezes e vezes sem conta porque independentemente de haver muita gente que ache que o mundo já é todo modernaço continuam a existir flagelos com mutilação vaginal, casamentos infantis, violações ou simplesmente "piropos" nojentos que entram no nosso espaço.

    gostei muito. beijinhos
    Vânia
    Lolly Taste

  4. Quem diria, não é? Em vez de robôs, continuamos a lutar por algo tão básico que há muito deveria estar enraizado. É triste… Mal por mal, os robôs seriam mais divertidos! 🙂

  5. Concordo plenamente. É um pouco o que digo sobre o dia da mulher. É uma treta que tenhamos que assinalar o dia. Mas enquanto existir esta desigualdade continuamos a precisar desse dia – e de nos classificarmos como feministas.

  6. Sabes, é isso mesmo que eu acho: que este tema precisa de ser mais falado, de ter mais vozes, de ter mais mulheres a lutar por eles. Por continuar a existir tudo isso e muito mais, sem dúvida.

    Obrigada pelo feedback, babe!

  7. Unknown says:

    Eu defendo a liberdade. Não a imposição de uma ideia de liberdade. Isto serve para todos os seres humanos, independentemente de pertencerem a uma minoria ou não. A liberdade é a aceitação da diferença inata e das escolhas individuais. Para preservar essa diferença, essencial para que haja liberdade do indivíduo e a igualdade que se apregoa, é uma "naifa de dois legumes" pois torna rígido aquilo que se quer subjectivo e flexível. Preferia ouvir, por isso, falar mais em equidade, como o caminho para uma igualdade que tenha em conta as diferenças.
    Mas thumbs up para o teu texto Mafalda. Bj

  8. Como fiquei feliz com o facto de apostares em promover essa outra faceta! A verdade é que me identifico muito mais com esse cariz intimista porque parece que nos chegas de uma outra forma. O que é óptimo!
    Beijinho grande ��

  9. Para ser honesta fiquei muito contente com o facto de teres publicado este texto. Primeiro porque concordo com todas as vírgulas e pontos e segundo porque é refrescante ver este tipo de publicações na blogosfera. Algo com conteúdo, sentimento e inteligência, sinto que ficamos a conhecer-te melhor enquanto mulher, não apenas como blogger. Beijinho e continua o bom trabalho 🙂

  10. Concordo inteiramente contigo Mafalda, apenas na minha perspectiva considero que homens e mulheres são diferentes sim. E não no sentido de, por isso terem de ter tratamentos diferentes no que diz respeito a direitos e deveres obviamente, mas sim no facto de ser uma realidade e de haver diferenças inexoráveis e aspetos diferenciados que não podem ser iguais, como o caso dos mamilos.
    Acho que tentarmos equipará-los não é para mim o caminho. Somos todos seres individuais, todos diferentes e todos iguais.
    No entanto, acho que era simples se olhássemos para os direitos humanos (como tu dizes) e deixarmos-nos de direitos da mulher ou do homem.
    O ideal era não haver marchas de nada, nem dias comemorativos. Ainda assim, acho que enquanto vivermos neste mundo preconceituoso talvez faça sentido que continuem a haver.
    Mas, como se generaliza comentários em relação às mulheres, também os há aos de etnias diferentes, aos que têm uma incapacidade qualquer, à pessoa que supostamente não entra dentro dos parâmetros ideias de beleza estipulados, o que não é financeiramente abonado,… bom um monte de racismos que no fundo é o Homem a debater-se contra ele próprio. Triste a sociedade em que vivemos mas é a real.
    E no que depender de mim, tal como tu irei falar destas questões e lutar contra todas! 🙂

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